JOHNNY – O DRONE

– Johnny! Cadê o Johnny, Ricardo?

O assistente ofegante colocou a maleta pesada do lado de Fonseca, e lá estava Johnny, um drone de última geração que os dois ficaram responsáveis de fazer os primeiros testes. Ricardo tirou o drone do case e o preparou para que o teste começasse. Fonseca estava impaciente, queria saber logo do que aquele novo brinquedo era capaz:

– Vamos, cara! Vamos colocar essa belezura para voar.

Ricardo não era realmente um assistente, ele era par de Fonseca nos testes, eram iguais, mas de alguma loucura que não entendia começou a ser tratado como um subalterno. Quando era tratado assim por Fonseca tinha vontade de xingá-lo, voar em cima do seu pescoço e machuca-lo bastante. Mas a vontade passava, os testes eram mais importantes, e não era porque seu colega de trabalho não passava de um ganancioso cego que ele abandonaria o barco por um simples acesso de fúria, mesmo que fosse justificada. Então pegou Johnny e o colocou no chão.

Fonseca estava com o controle e ligava aos poucos cada função de Johnny, se deleitando. Quando acionou a câmera abriu a boca e quase babou como se em seu cérebro também estivesse acionado a fantasia mais sórdida.

– Vamos lá belezura!

A excitação era grande em ambos. Quando as hélices começaram a girar o drone também parecia ter se excitado, deu uma sacolejada de leve, parecia animado. Fonseca adorou isso, Ricardo também. As hélices foram girando cada vez mais velozes até que Johnny começou a sair do chão lentamente, balançou mais uma vez, até que Fonseca o estabilizou e o fez subir firme até uma altura considerável. Fonseca olhava o painel do controle em suas mãos com a língua para fora, quase que querendo lamber de tanta excitação.

Johnny começou a sobrevoar a área de testes. No controle eram registradas todas as imagens captadas pelas lentes do drone. Fonseca fez com que ele desse um voo de reconhecimento para testar as funções. As imagens iam sendo captadas e registradas. Quando se deu por satisfeito resolveu se divertir um pouco.

– Vamos ver o que essa paradinha consegue fazer?

– Porra, Fonseca, nada de brincadeira.

– Ô queridão, fica tranquilo, só vamos o fazer correr um pouco.

Fonseca trouxe o drone até suas cabeças e o deixou sobrevoando a cima delas, definindo ali o ponto de partida para manda-lo a toda velocidade. Ele sorria, apertava os lábios com os dentes. Deixou os motores a todo o vapor e deu o comando para o drone sair em disparada. Vruuum. Parecia um Fórmula 1. Era veloz, era ágil. Johnny rasgava o ar como uma mortalha e parecia contente. Fonseca o mandava até um ponto considerável a sua frente e o fazia voltar com um rasante. Velocidade total. Fez isso umas quatro ou cinco vezes até que observou que na volta Johnny fazia uma linha no trajeto da curva do qual Fonseca não havia dado comando. Estranhou.

– Olha Ricardo, ta vendo aquela curva que ele tá fazendo para voltar? Essa coordenada não está de acordo com as que eu coloquei no controle.

– Como assim, Fonseca? Vai ver colocaste enganado.

– Pode ser né… Mas olha como ele é rápido!

Então mandou Johnny o mais veloz que podia até o ponto mais distante que conseguia alcançar sem perder a conexão. Foi tão longe que o drone se tornou um pequeno ponto no horizonte. Quando se deu por convencido, Fonseca o fez voltar.

O controle confirmou a coordenada e acusou que o drone havia recebido, em questões de segundo estaria sobrevoando suas cabeças. Passaram-se minutos e nada. Nem mesmo o ponto distante no horizonte aparecia mais. Resolveram aguardar mais um pouco e nada. No controle apenas as coordenadas enviadas e recebidas.

– Ué, cadê esse filho da puta?

– O que aconteceu, Fonseca?

– Não sei, mandei as coordenadas, o drone recebeu e já era para ele está aqui.

– Mas não tem nada ali na frente, cara. Essa porra caiu!

– Não, espera!

De repente surgiu no controle a informação de que o drone estava voltando, só que em outro trajeto, não o determinado por Fonseca. Um trajeto circular. Os dois começaram a girar no mesmo eixo procurando pelo drone.

– Mas que porra, como pode ser?!

Os movimentos circulares que apareciam no controle ficavam cada vez mais velozes e mais próximos dos dois. Mais e mais. Eles não conseguiam enxergar, mas já se ouvia alguma coisa parecida com o barulho da hélice de Johnny. Procuravam ansiosos. Mais próximo e mais próximo. Fonseca olhava o controle tentando localizar o drone. Olhava e os movimentos ficavam cada vez mais próximos, o barulho mais alto, a incompreensão desesperadora nos olhos de ambos ficava mais evidente, seus olhos estavam esbugalhados quando o barulho da hélice cessou repentinamente e o controle nas mãos de Fonseca começou a esfumaçar sozinho, a tela trincada, havia queimado.

Fonseca jogou o controle no chão. Os dois estavam assustados e sem entender o que acontecia. Engoliram em seco sem conseguir piscar, de repente um barulho de hélice se fez escutar as suas costas, em movimentos lentos e baixos, se viraram.

Era Johnny.

Fonseca começou a sentir uma falta de ar repentina, colocava a mão no pescoço desesperadamente, parecia que alguém o estava estrangulando. Ricardo o olhou assustado, sem saber o que fazer. Fonseca segurou a camisa do assistente clamando por ajuda, que aquele sufocamento sem motivo parasse imediatamente. As veias do pescoço estavam muito sobressaltadas, a língua se mexia do lado de fora, os olhos esbugalhados, Fonseca sofria. Ricardo observava tudo com cara de surpresa e sem saber o que fazer, o que realmente queria fazer, então virou para o drone.

Era Johnny.

O corpo de Fonseca caiu duro, sem nenhum ar. Ricardo se agachou para observar mais de perto o colega morto. Ele ficou alguns minutos analisando aquela tela mórbida. Quando a feição de alívio surgiu em seu rosto e um sorriso de canto de boca apareceu só escutou a hélice rodar mais forte e com mais raiva. Em seguida escutou seu próprio grito.

Era Johnny.

——

Alfredo guardou a garrafa de uísque na gaveta da mesa quando Sampaio entrou no seu escritório.

– Mais notícias sobre a morte dos cientistas? Disse Alfredo com a mão sobre a boca para que o hálito não o revelasse.

– Não, chefe. Nem digitais, a não ser dos dois, nem testemunhas, a não ser…

– A não ser o que, Sampaio?

– A não ser o controle do drone.

– E aí?

– O controle tá quebrado, sem imagens, sem nada.

– Então não tem “a não ser”. Porra, Sampaio.

O chefe rodou na cadeira giratória e se levantou. Andou até a frente da sua mesa, cruzou os braços, pensativo.

– Cadê o drone?

– Nada!

– Latrocínio… Divagou Alfredo em voz alta.

– Será?

– Cadê o drone, Sampaio? Porra! Agora… Quem roubou esses idiotas e por que matar?

Alfredo pegou o casaco que estava pendurado na cadeira giratória e saiu, Sampaio foi atrás. Os detetives estavam curiosos e não sabiam como começar.

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Na escuridão do quarto escutava-se apenas o baque forte da cama contra a parede em ritmo acelerado e ininterrupto. Entrecortado às vezes pelo o rosnar de uma voz masculina que também respirava ofegante. Quando a batida da cama cessou e se escutou o último rosnar, o homem que mais parecia um urso caminhou até o interruptor e acendeu a luz. Abotoou as calças e fechou o zíper olhando com raiva fixamente para a mulher que estava na cama.  Martinha estava deitada em posição fetal na cama, chorava em silêncio e buscava o lençol sem olhar para cobrir as partes íntimas.

– Até depois da janta. Disse Beto e saiu do quarto.

Martinha abriu a boca na tentativa de um grito choroso que não saía de jeito nenhum. Começou a procurar alguma forma de fugir do quarto sem que o marido visse, e tudo tinha que ocorrer antes que ele terminasse de jantar. Rodou desnorteada pelo quarto e quando não encontrou nenhuma saída desabou no chão aos prantos.

Beto saiu do banheiro e foi para cozinha jantar, esse que era obrigatório estar pronto e servido na hora que ele chegasse do trabalho, e claro, quente. O problema era que ele nem sempre chegava na mesma hora de propósito, num sadismo sem fim. Ele tinha um tamanho avantajado, bonito e com os braços fortes. Sentou-se na cadeira com todos os seus 98 quilos e manejava talheres e pratos com tanto barulho que parecia estar em uma carnificina.

Colocava colherada atrás de colherada de arroz na boca, uma atrás da outra, e enormes pedaços de carne. Os farelos lhe escapavam pela boca. Parou um instante de mastigar com a boca cheia e aberta. Pensou ter escutado algo. Levantou e foi até a porta do quarto, encostou o ouvido para tentar escutar alguma coisa. “Deve ser Martinha com a frescura dela”, pensou. Voltou à mesa para continuar a comer.

Colheradas e mastigadas.

Mais uma vez parou pensando ter escutado algo. Terminou de mastigar e engoliu, se levantando já mais impaciente. Foi até o quarto e dessa vez não iria hesitar. Pisando forte agarrou a maçaneta da porta com força e a girou. Já preparava o cinto quando abriu a porta e notou que a luz estava apagada e ela dormia.

Ficou encucado e fechou a cara.

Começou a fazer uma averiguação da casa. Abriu a porta do banheiro e nada. Foi até a sala e nada. Quando chegou à porta de entrada colocou a mão na maçaneta e parou, engoliu em seco, não abriu e voltou para a cozinha. Lá fingiu uma ronda. Viu o prato de comida na mesa que já começava a esfriar e resolveu terminar o que tinha que fazer e ir para o quarto reiniciar o que fazia de pior.

Quando sentou escutou um barulho que parecia ser um pequeno motor girando alguma coisa. Agora tinha escutado. Não era loucura. Olhou ao redor da cozinha, se arrumou na cadeira e voltou a comer, dessa vez o corpo já tenso.

Colheradas e mastigadas depois. Outro barulho de motor pequeno.

– Foda-se!

A comida já não descia fácil pela sua garganta. Os ombros estavam tensos. As pernas que balançavam freneticamente denunciavam a sua ansiedade. Beto estava com medo.

Quando terminou de jantar ficou parado na cadeira esperando escutar algo e ficou aliviado quando o silêncio tomou a casa. Começou a rir e a balançar a cabeça. Tomava o resto de suco que sobrara no copo quando o barulho voltou. Bateu com força o copo na mesa e se levantou impaciente. Foi até a porta de entrada a abriu e gritou.

– Isso são horas de fazer barulho, porra? Vão dormir!

O barulho cessou. Fechou a porta atrás de si e foi para a cozinha. Era hora da cerveja, um esquenta antes do quarto.

Abriu a geladeira e puxou duas garrafas. Tomou de uma vez a primeira cerveja e a outra deliciaria aos poucos. Fechou a geladeira e ao se virar viu uma linha fina de luz vermelha que saía de fora da janela em cima da pia, atravessava a cortina e adentrava a casa, e junto a ela o barulho. Beto fechou a cara sem entender e caminhou lentamente até a janela; os pelos do corpo arrepiados. Parou em frente à fina luz que agora apontava na direção do seu peito, puxou hesitante a cortina e viu o objeto estranho que emanava aquela iluminação vermelha.

Voava através de quatro hélices, pelo menos era o que Beto imaginava ser o que rodopiava rapidamente em cima do objeto na escuridão lá fora, a luz vermelha vinha de um pequeno ponto localizado na parte superior a esquerda do que ele imaginava ser uma lente de câmera, essa, por sua vez, ficava na frente e no centro do objeto.

– Mas que…

Antes que completasse o motor do objeto girou mais rápido e mais alto e sentiu uma dor horrível na mão direita. Ele gritava e se babava como um animal. De repente os dedos começaram a se quebrar sozinhos, um por um. Beto chorava e suplicava. Quando todos os dedos da mão direita estavam quebrados começou tudo de novo, só que dessa vez na mão esquerda.

– Não, não, não! Por favor, não.

Não havia misericórdia. Os dedos quebraram uma a um. Quando o último foi quebrado, Beto se contorcia, choramingava, e balbuciava alguma coisa do tipo “Deu…”. A fina luz vermelha começou a passear por todo seu corpo e parou no zíper da calça.

– Chega, por favor, chega! Beto babava.

Não demorou muito e Beto começou a sentir uma quentura que lhe queimava as entranhas na parte de dentro de suas genitálias. Parecia fogo em gasolina. E queimava mais, cada vez mais. O grito de Beto saía engasgado por conta do dor que sentia. Quando a dor e a quentura chegaram ao ápice suas genitálias explodiram fazendo um jorro de sangue incessável, mas não isso apenas, toda a região da cintura de Beto explodiu de dentro para fora causando uma erupção de sangue. Ele caiu branco no chão, mais sangue lhe escorria a boca e seu corpo dava pequenos tremeliques seguidos que diminuíam a cada segundo que passava, até que pararem definitivamente, assim como a própria vida de Beto. O que não parava naquela altura dos acontecimentos era o motor que fazia rodar aquelas quatro hélices de Johnny.

Alfredo e Sampaio estavam em uma lanchonete. Bebiam cerveja. Os crimes misteriosos se acumulavam e eles estavam longe de uma solução, até mesmo de uma pista que fosse. Isso deixava Alfredo apreensivo e o fazia beber ainda mais.

– O cara morreu com os colhões em frangalhos, Alfredo.

– O que está acontecendo, Sampaio? Não tem arma do crime, não tem testemunhas, porra nenhuma. As pessoas deram para morrer misteriosamente agora é? Explodirem de dentro para fora?

Sampaio riu e logo foi repreendido por Alfredo.

– Vai lá, Alfredo. Esse cara também fazia poucas e boas com a mulher, era um desgraçado!

– Vai virar justiceiro agora, Sampaio? Vai sair matando a torto e a direito é? Polícia não serve mais para nada é? Queres meu distintivo já?

Sampaio não segurou o riso dessa vez. Até Alfredo esboçou algo parecido com um no meio daquela sujeira que ele chamava de barba.

– Olha isso aqui. Os vizinhos falaram que na noite da morte escutaram algo como se fosse o motor de hélices, algo voando, que vinha da casa. Não viram, apenas escutaram.

– Beleza, tem um objeto voador não identificado… Os E.T.s invadiram e são assassinos?

– Não, porra!

– Não, espera. Mas e se… Vira essa porra aí, Sampaio.

Os dois viraram os copos e saíram. A cabeça de Alfredo fervilhando e Sampaio curiosíssimo.

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Carlos abriu o porta-malas do carro na garagem de casa e tirou o corpo de um homem morto, degolado. A distração da noite havia sido um advogado que conhecera no bar, o seduziu e foram parar em uma casa que mantinha distante do centro. Nada fora do normal para ele, pelo contrário, o excitava tremendamente. Colocou o corpo no chão, puxou uma cadeira, sentou-se e ficou contemplando o defunto durante vários minutos. Fazia isso toda vez que chegava com uma nova presa, esse momento para ele era mágico, o corpo inerte sem vida. Chegava até a chorar de êxtase.

Enxugou as lágrimas e resolveu começar o ritual para sumir com o corpo, pois mesmo que para ele fosse normal aquilo as outras pessoas não entenderiam e isso o chateava profundamente. Pegou todos os produtos e instrumentos necessários que ficavam guardados em um armário ali mesmo na garagem. O ritual passava por cortar todos os membros da pessoa, para diminuir o volume, inclusive a cabeça, o que sempre deixava por último, pois era mais divertido. Em seguida colocava em um recipiente onde derretia tudo com ácido. Juntava tudo e descartava no lixão da cidade. Simples assim.

Pegou a serra. Começou os trabalhos pela perna direita. Alguma gota ou outra espirravam na sua cara e ele sorria, divertindo-se. Perna esquerda. Braço direito. Braço esquerdo. Seu corpo já se encontrava quase todo ensanguentado, tinha o costume da fazer tudo isso nu. Faltava a cereja. Inclinou a cabeça para enxergar melhor a do advogado e arrumou os cabelos que caiam em cima da testa. Virou a cabeça do morto de lado e apontou a serra no pescoço para começar. No primeiro corte dado por Carlos ele sentiu sua própria veia do pescoço inchar. Não ligou muito. Mas quanto mais a serra ia e vinha pelo pescoço da vítima sentia sua veia pular mais e mais até que não suportou mais. Largou a cerra no chão e apertou a própria veia. Mas não tinha jeito, ela estava prestes a estourar e foi o que aconteceu. Um ponto aberto na sua veia começou a espirrar sangue sem parar, era questão de minutos para que ele ficasse completamente sem forças. Mas como pedir ajuda naquela situação em que se encontrava? Teria que tentar solucionar aquilo sozinho. Achou um pano velho na garagem e apertou contra o pescoço numa tentativa frustrada de estancar o sangramento.

Então tudo foi muito rápido. Carlos escutou seus músculos sendo rompidos quando seus dois braços foram arrancados ao mesmo tempo pelo invisível. Não sentia mais seu corpo e a morte era inevitável. Quando caiu de joelhos desceu do teto sobre ele um objeto voador não identificado. Parou na altura do seu rosto. Ele olhava vesgo para as lentes do drone. Mas antes que ele se despedisse da vida, os motores de Johnny tiniram, e aproximando-se lentamente suas hélices do pescoço de Carlos, o degolou com sábia destreza.

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Sampaio depositou os arquivos das vítimas na mesa de Alfredo. Já eram mais de dez. Eles tentavam entender a lógica dos crimes e só uma conseguiram:

– É tudo gente ruim.

– E eu vou prender ambos.

– E o objeto voador?

– Vai se fuder!

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Johnny veio lentamente pelas nuvens. Há dias vagava por elas procurando suas vítimas. Correndo arquivos e imagens em sua memória. Eram milhões de arquivos. Sobrevoava um bairro nobre enquanto milhares de arquivos rodavam. Estava em dúvida naquela noite até que parou na foto de uma mulher. Mulheres! Fazia tempo que não matava uma, havia se concentrado nos homens bizarros, eles eram estranhos demais para ele, estava na hora de uma folguinha. Uma mulher ajudaria a arejar as ideias.

Suane. A escolhida. Era de família rica. Havia matado os pais junto com o namorado para que a herança viesse. Os dois continuavam impunes e moravam juntos na casa dos pais mortos. O crime havia sido tão bem orquestrado que apenas Johnny sabia a verdade, humanos estavam longe desse tipo de raciocínio.

Seria o trabalho da noite. Localizou a casa e se as vítimas estavam presentes. A mulher estava. O namorado ficaria para outro dia. Isso poderia esperar. Afinal seu objetivo da noite era uma mulher, se o namorado viesse seria um bônus. Todos ganham.

Parou a quilômetros de distância da casa e foi descendo lentamente, no seu módulo silencioso, até o quintal. Era uma mansão, até ele se perdeu por um milésimo, mas logo seus algoritmos resolveram tudo. Pelo quintal rodeou a casa, queria ter certeza que mais ninguém estava presente. Não havia mais ninguém.

Sobrevoou mais um pouco pelo quintal até encontrar a vítima na sala. A sala tinha gigantes portas de correr de vidro que davam acesso ao quintal, então a visão de Johnny era privilegiada. Não hesitou e resolveu começar seu jogo.

Observou friamente Suane se servir de vinho e sentar no sofá. Ela olhava pensativa para o chão, como lembrasse algo de muito prazer que havia feito. Johnny sabia o que era. Rapidamente ela fechou o rosto e expirou pela boca. Havia chegado o momento. Tocava uma música suave na sala. O drone já queria saciar a sua vontade, sem mais enrolações, faria aquela mulher sofrer. Pensou rapidamente nos caminhos que tomaria e o que faria com ela. Resolvido. Acionou seus motores. A luz vermelha acendeu. Então Suane se levantou e começou a dançar na sala com movimentos leves e delicados, em harmonia com tudo. Johnny ficou paralisado com aquela ação. Não entendeu o que aquilo significava. Ele teria deixado passar alguma coisa em todo seu conhecimento. O que era aquilo? Johnny sabia que deveria mata-la, mas estranhamente não conseguia e isso começou a criar uma grande confusão em seu sistema. E num rodopio de Suane, Johnny enxergou o rosto dela, e viu uma beleza nunca vista em sua memória, então diminuiu a rotação dos seus motores. Já não sabia o que estava acontecendo. Queria matar, mas acima de tudo queria contemplar aquele acontecimento. Johnny observava e nunca parecia satisfeito, queria resolver o infinito ali e queria que aquela dança nunca acabasse. Aquelas imagens nas memórias de Johnny eram inéditas e ele começava a criar um estranho apreço por elas. Naquele momento em que observava Suane, resolveu se entregar, e de repente tudo ficou escuro. Um tiro ecoou atingindo o drone que caiu como estivesse em câmera lenta até o chão. Sua câmera ainda visualizou um último corpo que o pisoteou até estraçalha-lo, não era Suane, até que tudo apagou de vez e sua luz vermelha emitiu um último faixo de luz. Suane se assustou com todo aquele barulho e foi correndo para fora até o encontro de quem havia atirado em Johnny:

– Oi, amor!

– Porra, Alfredo, que susto!

Um conto de Henrique Mantovani e Fabrício Pinheiro