O MP3 da Caixa Vermelha

Eram 3:33 da madrugada e a insônia M. Pedro era brutal especialmente após sequências de filmes sobre terror psicológico. Ele não sabia o porquê dessa aventura sombria decidida após um bate papo sobre JAZZ e a dança da natureza com sua amiga M. Priscila, que tinha um pouco mais da metade da sua idade, porém dominava o assunto com sutileza e a profundidade de um bom papo noturno. Uma notívaga onde os dois papeavam entorpecidos de virtualidade e vinho, da cor do sangue.

Já eram 3:48 e M. Pedro não conseguia mais dormir, então caminhou até sua cozinha na escuridão da noite e abriu sua geladeira quase vazia que ainda restava sua última companhia daquela noite, a garrafa de vinho seco. Estava praticamente sozinho, ele pensou. Ainda incomodado com as histórias que acabara de ver, acendeu seu fumo e colocou-se apoiado em sua janela refletindo os dramas. Deu dois tragos simultâneos, um no vinho e outro no seu tabacco. Se sentiu sufocado e tossiu. Males das drogas, inevitável.

Cansou-se e chamou sua amiga no chat do whatsapp mais uma vez, pois ambos eram notívagos. M. Pedro quis conversar sobre sua insônia e histórias que tinha visto através da sua Televisão de última geração moderníssima.

– Pri… está fazendo o que? Acordada?

– Nossa meu! Acredita que não consigo dormir? Estou aqui vendo filme bosta!

– Então… não consigo dormir mais. Fodido aqui pensativo num filme que vi.

– Ela escreveu: Humm… me conta aí então sobre, porque o que estou vendo hoje está difícil, não acertei na escolha.

Pedro nem se deu o trabalho de perguntar a M. Priscila que filme ela assistia, já saiu descrevendo seu incômodo. Insensível.

– Saca só! O personagem principal entra em uma reunião com outros amigos e num tipo de ritual eles entram em estado profundo de sono, porém não se tratava de sonhos e sim uma imersão em uma realidade virtual bizarra num mundo pós-apocalíptico causado pelo próprio homem. (O que é bem possível de acontecer vamos combinar!). Então os personagens começam a matar uns aos outros como se fosse em um jogo de tiro. Brotavam armas do nada, objetos aleatórios e parecia que tudo era possível nesta realidade as coisas criavam vida própria!

– Nossa! Que viajem! Continua…

– Desenrola assim por um tempo, uma coisa meia non-senso mesmo, porém no desfecho do filme os personagens acordam todos machucados na “vida real” alguns sem membros, outros rasgados, pele cortada, sangue, enfins…

– Beleza, mas cadê o incômodo aí? O terror psicológico, cadê? Não entendi…

– Ahh… sei lá. Imagino que deve ser bem horrível ficar preso na sua própria mente sendo mutilado por objetos, coisas e “acordar” quase morto.

– Entendi… bom meu amigo, acho que você está cansado. Deveria tentar dormir ou procurar algo para distrair sua mente. Mexa nas suas coisas guardadas que tenho certeza que encontrará algo para clarear suas ideias e esquecer dessa história sobre realidade virtual transmutando para o real. Acredita em mim! – Ela escreve.

Mandou um emoji de sorrisinho no final do texto.

– Ela continua: Sei que você não acompanha muito essas tecnologias sobre realidade virtual e talvez isso possa ter te chocado um pouco, mas com certeza esse filme é mais interessante do que o filme bosta que estava vendo. Hahaha. Depois me diga o nome deste.

– Está bem! Você pode ter razão! Vou procurar algo aqui. Bom… vou nessa então. Beijos! Boa noite.

Nesse momento já se passavam das 4:21 da madrugada/manhã, como você preferir, então M. Pedro continua com seu vinho, acende outro cigarro e as luzes do seu apartamento continuam apagadas, só fica a pequena lâmpada acessa no canto da sala e o som da noite assoprava ventos uivantes entre os prédios da vizinhança. A noite ficava mais fria e escura que o normal e sua insônia não passava, aliás nem pretendia mais dormir.

Ele recebe mais uma mensagem.

– M. Pedro… estou online está bem? Qualquer coisa me chame! Fico preocupada assim com você sozinho.

Viu a mensagem. Não respondeu. Seguiu o conselho de sua amiga e foi procurar algo para entreter sua noite e mal esperava ele o que aconteceria naquela calada escuridão. Foi até sua estante cheia de poeira que não limpava há semanas e viu sua velha caixa de documentos, cartas, desejos, sonhos guardados e memórias. Pegou-a, fez um assopro cansado e frio para tirar a poeira da tampa e sentou-se novamente, desta vez em seu sofá da sala próximo a lâmpada acesa. Abriu a caixa.

Se tratava de uma caixa de papelão mesmo, dessas bem resistentes e dentro dela o que ele esperava, suas memórias. Memórias resistentes. Leu algumas cartas de papel antigas que foram escritas um pouco antes da chegada dos celulares mais modernos, quase no mesmo período em que os computadores domésticos começaram a ser comercializados. Encontrou fotos de infância, fotos de família e de ex-amores.

Neste momento M. Pedro se deu conta do seu passado e de como estava sozinho isolado em seu pequeno apartamento no centro da cidade, sentia falta do contato humano e sua principal companhia era sua amiga M. Priscila que estava online, porém alguns metros de distância.

A noite continuava sem piedade de sua solidão e nostalgia até que na caixa vermelha feita de papelão encontra seu antigo MP3 player! O primeiro que comprou com a graninha que recebia de seu falecido pai. Foi um momento especial naquela noite, talvez um dos seus últimos.

Um gole do vinho cor de sangue, fresco na meia luz da sala, pegou o brinquedo. Não lembrava que o cabo do fone era tão grande, tinha quase uns 4 metros. De qualquer forma colocou em seus ouvidos os fones e ligou o brinquedo nostálgico. Curioso para saber que tipo de música tinha na memória do aparelho, apertou o play e abriu um sorriso na expectativa do que iria escutar, pois não lembrava. Impressionantemente havia bateria ainda, ele disse em voz baixa:

– Porra! Como tem bateria nisso ainda? Fazem décadas que não ligo isso!

Nessa fase da vida M. Pedro escutava muitas músicas góticas, foi seu tempo de vampiro, seu tempo perambulando pela noite adentrando cemitérios sempre acompanhado com vinho e seus amigos. O play foi nostálgico e mortal. Uma fase gótica com vinho servido em taças em forma de caveira, velas acesas e dados de RPG rolando. Em algum ponto a música acaba e se mantém um silencio em seus ouvidos assim como a noite lá fora. Os ventos não sopravam mais e o tempo se mantinha inevitável. Voltou a lembrar daquela fase da vida e o silêncio começou a incomodá-lo.

Uma voz surge em seus ouvidos. Uma voz suave, presente e intimidadora.

– Você me ouve com seus ouvidos ou com sua alma rapaz?

Pedro entrou num susto profundo e trêmulo, quase intacto conseguiu acender novamente seu cigarro com as mãos tremendo e em sequência de choque tentou tirar os fones de seu ouvido urgentemente. Tentou.

– Essa noite você irá arder! – Ouviu a voz no play de seu MP3

Desesperado M. Pedro levanta do sofá tentando tirar os fones sem sucesso. O cabo longo fazia círculos no chão e sombras da pequena lâmpada no canto da sala.

Eram 4:44 da madrugada.

Pedro questiona sua existência em fração de segundos e não entende nada, chocado em pânico responde:

– Que porra é essa!? Quem é você?

– Eu sou o seu terror. Sou o que há de desumano em você. Sou o vício. O inevitável. Seu passado que esqueceu. Suas escolhas malfeitas. Sou a realidade que você irá conhecer.

Neste momento M. Pedro tenta desesperadamente tirar os fones do ouvindo não querendo mais ouvir assustado. Se pergunta se está sonhando, se pergunta se não está dentro de um filme. De repente o cabo do MP3 cria vida própria e o envolve como se fosse uma cobra agarrando sua presa apertando-o lentamente. Ele cai do sofá direto com a face no chão da sala. Não acreditando no que estava acontecendo M. Pedro se debatia no chão a gritar, mas não conseguia ouvir sua própria voz. Estava em torpor, sentia todo seu corpo formigando, calafrios, falta de ar e com certeza já não era o vinho que o fazia aquilo; pouco a pouco o cabo apertava mais seu corpo e a sensação era de que estava sendo retalhado. Uma angústia muito grande tomou conta de seu ser indefeso se debatendo em desespero no chão e nada fazia sentido. Seus questionamentos não o levavam a lugar algum, porém imaginou que poderia ser algum tipo de feitiço ou bruxaria feita naquele MP3 guardado na caixa vermelha onde no decorrer do tempo foi ganhando força até ser encontrado.

– Exato meu jovem!

Eram 4:45 da manhã de segunda-feira. Estava mais escuro que o normal. Sem estrelas, sem brisa, sem luzes acesas da vizinhança, um apagão completo e sua única luz era a lâmpada no canto da sala que não se movia. O cabo do MP3 se tornara corrosivo e farpado rasgando lentamente o corpo de M. Pedro e o grito não vibrava no ar.

– Grite! Ninguém irá escutar sua dor agora. Você está sozinho e irá partir sozinho.

O tempo não passava, minutos pareciam horas de agonia e M. Pedro escutava essa voz repetindo e repetindo muitas vezes a seguinte frase:

– Sozinho e em partes. Sozinho e em partes. Sozinho e em partes.

O cabo do MP3 estava corroendo suas roupas e pele. O brinquedo estava em sua mão esquerda e o cigarro já apagado próximo a sua mão direita. No chão. Apagado e morto. Seu corpo retorcido e sofrendo próximo ao sofá e sua alma vagando nos nós do cabo já ensanguentados de sangue e vinho cor de sangue. A primeira parte foram seus pés a serem cortados e o sangue escorria por debaixo do sofá quase chegando próximo a porta do seu quarto.

– Por que você está fazendo isso? Por quêeeee?  – Disse M. Pedro para a voz com seu pensamento.

– Há muitas razões! E também não há nenhuma razão! Faço por que posso, por que sou inevitável e nada ou ninguém resistirá a mim.

Em partes M. Pedro foi perdendo pedaços do seu corpo, como se fossem fatias de carne podre e as suas lágrimas sendo misturado com seu sangue no chão. As lágrimas do passado, presente e do que ele conseguiu se lembrar. Nada justificava naquela noite calada, fria e sem luz alguma; tentou entender as razões. Em vão. Perdera as expectativas de viver e fechou os olhos só desejando estar em alguma realidade virtual onde tudo aquilo não fosse possível, mas no engano se deu conta que estava em um sonho na verdade e fechou os olhos novamente.

 

Eram 4:46.

Ainda vivo M. Pedro escuta mais uma vez:

– Sozinho e em partes. Partir seu corpo não será fim.

Neste momento o corpo de M. Pedro já envolto de sangue refletia a luz do canto da sala uma sombra de uma forma jamais vista por um ser vivo que parecia movimentar-se no ambiente.

 

…..

 

Eram 10:00 da manhã.

Priscila ainda acordada em sua insônia no isolamento de seu apartamento decide mandar mensagens sem respostas, sabendo que seu amigo provavelmente estaria acordado. Intrigada com um olhar aterrorizante de pessoas que passaram a noite “em claro” decide bater à porta de seu vizinho. Afinal eles moravam no mesmo prédio.

Toc toc toc e nada!

Ela tinha uma chave reserva e preocupada abre seu apartamento já sentindo um cheiro horrível.

– AAHHHHHHH!!!

Priscila encontra o corpo do seu amigo rasgado em partes, seus membros distantes um dos outros, sangue, muito sangue pelo chão e a cabeça com rosto gentil do amigo fora do tronco. Pedaços de M. Pedro pela sala.

Sai correndo do apartamento gritando pelo prédio, porém antes de sua saída num movimento involuntário pega o celular do amigo que possui suas fotos, lembranças, sonhos, desejos.

Ela fecha a porta.

A luz no canto continua acesa. Muito prazer.

 

Um conto de Henrique Mantovani e Fabrício Pinheiro