Um conto de Cê me Ótica?

Começou no índice de alguma coisa, ele se lembra. Lembrou que um velho amigo disse sobre os significados e as significantes, mas quem era ele mesmo se perguntou? Ficou paralisado ali…abrindo e fechando os olhos rapidamente e buscou se lembrar de tudo o que vira naquela noite. Num processo natural do passar dos segundos os signos se mostravam não tão claros na sua mente e tudo pareceu complicado de relacionar, de entender e encontrar um sentido, ou qualquer sentido, até os dele próprio. Tentou seguir os planos.

Lembrou de uma explanação sobre primeiridade, secundidade e terceiridade, algo que um amigo Charles disse. Não! Não foi Charles o Xavier. Foi outro Charles. Tão careca quanto ele não sabia. Ficou a dúvida então, pois talvez houvesse alguma diferença, mas nessa altura já não importava, era irrelevante.

Lembrado isso e o movimento constante de piscar de olhos e corpo estático, procurou relacionar como surgiu esses três itens naquela noite e qual foi a ordem das coisas. Tudo indicava uma certa dificuldade de raciocinar e o cenário era confuso. Olhou para um lado e tinha copos de formato reto, alguns com líquidos e outros vazios e os aromas eram intensos, olhou para o outro lado e tinha um cinzeiro lotado de cigarros apagados, só no fim… só bitucas. indices de uma noite toxicante.

Bitucas? Ele pensou: “quem escolheu esse nome? Bituca. É algum tipo de Tuca que é Bi? Bi o que? Bicampeã? bissexual?” … foi irrelevante.

Olhou pra cima e o teto continua branco e isso foi bom, pois lhe trouxe para um lugar que já era dele, reconheceu que era o teto do seu próprio quarto, ou seja, ele estava lá em seu quarto, pois através do seu teto lhe permitiu associar que aquele teto era dele. Mas e tudo que está dos lados ele se pergunta. Buscou todas as respostas possíveis, todas que estavam ao alcance da sua imaginação e intelecto, mas nada fazia sentido, todas aquelas imagens, signos para serem desvendados, indícios que que fumara muito por aquelas bandas, nada fazia sentido e os olhos pesavam mais e mais. Ele não queria mais ver.

Foi impossível não ver algumas verdades. Foi impossível pois mesmo com os olhos fechados ele via projeções na sua mente, além disso ouvia um barulho intenso de britadeira massacrando algum chão próximo. Assim ele se deparou com os lados, teto e chão. Se viu como uma rosa dos ventos. Estática.

Aquele barulho boxeava seu cérebro, vários combos de dor, sequencias intermináveis de marteladas agudas… era o fim, pensou. As tentativas de relacionar os elementos, os nomes, o que estudara alguns anos se perderam no vazio e nas marteladas violentas da britadeira em seu cérebro, estava para perder a tentativa de entrar nos vastos campos floridos e fantásticos do loop infinito da semiosis (e nesse instante entrou no eco). Ouvia seu pensamento dizendo e rebatendo em pulsos constantes….

LEVANTA, DESPERTA, SEMIOTIZA, Beba agua!

Semiotiza, desperta, levanta, agua.

Agua, semiotiza, levanta, desperta.

Semi…..água, semi…anta, semi…perto.

Algum estimulo o fez levantar a cabeça e piscar os olhos mais devagar e o mais interessante é que percebeu o quão rápido passou tudo aquilo. Teve a sensação da ideia que se passaram poucos minutos até chegar naquele estado. Ele só queria sair daquele estado fálico, sair daquele canal sem proposito e tomar sua agua gelada, um banho, agua e mais agua, tal elemento natural que purifica e lava.

Ele levanta como um Homo demem comunicans ressacatium, a evolução de um neandertal cheio de dentes e um bafo de dragão querendo viver e observar. O loop recomeça e novas associações vão surgindo. Acende um cigarro.

ECO…….. infinito.

Ressaca…. finais de semana.

Cigarro… LM

Ciclo….. vicioso.

Água….geladaaaahh!

Finalmente se depara com os infinitos interpretantes. WOW. Quanta “gente” está aqui ele pensa. Ficou contente pois soube que não está sozinho e lembrou: “eu prefiro ser….essa metamorfose ambulante” Raul seixas. Lembrou da música que fez todo o sentido na situação e completou a análise com bafo, cara inchada, moleza no corpo, cabeça pesada, sede voraz.

Lembrou de um sonho meio esquecido que carregava diversos elementos simbólicos e que sabia de alguma forma que estavam relacionados com sua vida ou com sua noite anterior. Lembrou que tudo está carregado de interpretantes e que é de certa forma complexo olhar para tudo aquilo sem se perguntar as relações que as coisas tem com as outras coisas. Sempre na busca de um entendimento, de uma razão, de um porquê.

Ele sabia que praticamos leituras analíticas o tempo todo, é impossível não fazer, está na vida e é assim que o ser humano se corresponde. Trocando analises.

Analise…até parece coisa de psicólogo. Coisa de maluco. Coisa de pessoas que tem probleminhas e essa tal ressaca não deixa de ser um probleminha. Confunde os sentidos, confunde a semiótica. Fica bem “semi” mesmo.

Continuidade? ….. do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Clichê. Pauta para infinitas analises cheias de representações, vira um ciclo com eco, eco, eco, eco.

Na sequência do cansaço físico e moral essa entidade feminina cheia de ecos (ressaca) martelando e deixando a dúvida: “estava ele preso no eco profundo dentro da própria percepção? Estava ele dentro da própria caverna que ecoa as questões procurando uma forma de despertar? Está num sonho?”

Dúvidas e perguntas que se mostram e atravessam as portas da percepção quando alteramos nossa perspectiva. Trazê-las de volta para um estado “lucido” é tarefa dedicada e complexa.

Como li de um recente autor: “a ideia da coisa as vezes se torna mais interessante do que a própria coisa”.

Ps: Não consigo lembrar nem onde deixei meu cigarro, muito menos o nome do autor.

A ressaca. Por Henrique Mantovani

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